Família pede justiça após pinça ser esquecida dentro de idoso que morreu no hospital municipal de João Pinheiro

Manoel Cardoso faleceu na véspera de Natal; filho serralheiro forjou a própria cruz do pai esta semana

A ceia de Natal de uma família pinheirense foi substituída pelo luto, pelo silêncio e por uma busca incessante por respostas. Manoel Cardoso de Brito morreu no dia 24 de dezembro, às vésperas do Natal, após passar por procedimentos cirúrgicos no Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares, em João Pinheiro. Desde então, familiares convivem não apenas com a ausência, mas com a dor de não saber, com clareza, o que de fato aconteceu.

Para o filho, Samuel, a perda do pai veio acompanhada de um sentimento profundo de injustiça. Em entrevista, ele relembrou os últimos momentos ao lado de Manoel, mesmo diante das limitações de saúde. “Meu pai era tudo pra mim. Mesmo doente, ele me beijava, dizia que me amava. Eu falei pra ele que ficaria até o fim. E eu fiquei”, contou, emocionado.

Samuel disse que, inicialmente, não acreditava nos rumores de um possível erro médico. “Eu achava que era boato, conversa. Nunca imaginei que alguém pudesse esquecer um instrumento dentro de uma pessoa. A minha confirmação foi quando eu vi a imagem. Aquilo acabou comigo”, afirmou, referindo-se à tomografia que indicaria a presença de um objeto estranho, uma pinça, no abdômen do pai.

Manoel era servidor público, com 26 anos de serviços prestados à Prefeitura de João Pinheiro, e, apesar das sequelas de um AVC, mantinha autonomia dentro de suas limitações. “Ele comia sozinho, com a própria mão. A gente cuidava dele. Nunca imaginei que fosse terminar assim”, disse.

A cunhada Júlia também relatou indignação com a forma como a família foi tratada durante a internação. Para ela, faltou diálogo e transparência. “O que mais machuca é sentir que esconderam coisas da gente. Ele não era só um cunhado, ele era como um pai. A gente cresceu com ele dentro de casa”, declarou.

Já Natalice, amiga da família e acompanhante no dia em que Manoel foi levado para realizar a tomografia, afirmou que não foi autorizada a acompanhar o exame. “Levaram ele e não explicaram nada. Se eu tivesse visto aquela imagem na hora, eu teria surtado dentro do hospital. Não é só a dor de perder, é a dor da forma como foi. É uma vida”, desabafou.

A família afirma que não foi comunicada previamente sobre a necessidade da segunda cirurgia nem sobre os riscos envolvidos. Segundo Samuel, se tivesse sido informado sobre a existência de um erro ou sobre a real gravidade da situação, jamais teria autorizado o novo procedimento. “Eu teria tirado meu pai de lá. Teria corrido atrás de outra solução.”

Manoel morreu três dias após completar mais um ano de vida, em um período simbólico de união familiar. Para os parentes, o Natal passou a representar não apenas saudade, mas revolta e um vazio difícil de preencher.

O que diz a Prefeitura

Somente após a repercussão do caso, a Prefeitura de João Pinheiro divulgou uma nota de esclarecimento por meio da Secretaria Municipal de Saúde. No comunicado, o município informa que Manoel deu entrada no sistema municipal de saúde no dia 5 de dezembro de 2025, encaminhado pela UPA, apresentando quadro grave, com vômitos com sangramento, rebaixamento do nível de consciência e importantes sequelas neurológicas.

Segundo a nota, exames identificaram um quadro infeccioso severo, o que levou à realização de uma cirurgia de urgência para tratamento de úlcera perfurada, procedimento considerado necessário para preservar a vida do paciente. A Prefeitura não informou a data exata da primeira cirurgia.

Após o procedimento, Manoel foi encaminhado à UTI. Durante a internação, houve novo rebaixamento do nível de consciência, o que motivou a realização de novos exames. Nesse momento, foi identificado um corpo estranho na cavidade abdominal, o que levou à necessidade de uma segunda cirurgia de urgência, cuja data também não foi divulgada oficialmente.

De acordo com o município, no segundo procedimento não foram constatadas perfurações intestinais e as suturas anteriores estavam íntegras. A administração ressaltou ainda que o paciente já apresentava estado clínico extremamente debilitado, com infecção instalada, idade avançada, histórico de cardiopatia, diabetes, arritmia cardíaca e graves sequelas de AVC — fatores que, segundo a nota, contribuíram para o desfecho.

A Prefeitura informou que adotou providências administrativas, incluindo notificação de evento adverso, comunicação à Anvisa, instauração de sindicância, reforço dos protocolos de segurança e registro formal das medidas adotadas. O município manifestou solidariedade à família e afirmou permanecer à disposição para prestar esclarecimentos.

Busca por respostas

Enquanto as investigações seguem em andamento, a família de Manoel Cardoso de Brito afirma que continuará buscando a verdade. Para eles, mais do que explicações técnicas, o que está em jogo é o respeito à vida e à memória de um homem que dedicou décadas ao serviço público e morreu às vésperas do Natal, deixando uma família marcada pela dor e pela espera por justiça.

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