O dia mal tinha clareado e a gari Nancy Soares já estava com a vassoura na mão. Desde as 4:30h deste domingo, 4 de outubro, ela e a equipe de limpeza tentam vencer um problema que se repete em dia de eleição em João Pinheiro: calçadas e ruas em frente e ao redor dos colégios eleitorais cobertas por santinhos e panfletos de vários candidatos, espalhados antes mesmo de os eleitores chegarem para votar.
O trabalho, segundo ela, parece não ter fim. "Tá difícil, porque a gente acaba de limpar uma porta da escola, eles vêm e jogam de novo", desabafou. Para Nanci, o papel na rua não muda o voto de ninguém. "Se você já tem um candidato pra você votar, não adianta eles jogarem papel na rua, não. Todo mundo já tem consciência em quem vai votar. É uma falta de respeito com os garis, uma falta de respeito mesmo. A gente não vai dar conta do serviço por causa deles."
A indignação também passa pelo bolso. "É muita sujeira, é muito dinheiro jogado fora. Nisso aí vai dinheiro, e dinheiro sai de onde? Do seu bolso", questionou outra pessoa ouvida pela reportagem.
Conhecida como derramamento de santinhos, a prática é considerada propaganda eleitoral irregular quando o material é espalhado nas ruas próximas às seções na madrugada da eleição. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entende que a conduta tenta influenciar o eleitor na reta final e desequilibra a disputa entre os candidatos.
A jurisprudência do TSE prevê multa nesses casos. Em decisão de 5 de março deste ano, o tribunal reafirmou que recolher o material depois não livra ninguém da penalidade, já que a irregularidade acontece no momento em que os impressos são jogados. A punição, porém, depende da comprovação de quem participou do ato: o simples fato de um santinho trazer o nome de determinado candidato não prova, por si só, que ele ou sua equipe tenham mandado espalhar o material.
Até o momento, não foram informados o volume de papel recolhido em João Pinheiro, os responsáveis pelo descarte nem a aplicação de multas. Matéria em atualização.
