Foram 36 dias internada, quatro cirurgias, o abdômen aberto e dezenas de pedidos de transferência negados. Na tarde da última quinta-feira (30), Elisângela Ferreira Rodrigues, de 44 anos, saiu do Hospital Municipal de João Pinheiro de ambulância com destino ao Hospital Santa Lúcia, em Poços de Caldas, a mais de 600 km de distância. Elisângela já chegou ao hospital e está recebendo atendimento. A vaga só saiu porque a Justiça obrigou o Estado de Minas Gerais a comprar um leito em hospital particular, já que nenhum hospital público aceitou receber a paciente. Antes disso, o SUSFácil havia recusado a transferência por entender que o que a paciente precisava já existia em João Pinheiro.
Mesmo com a obrigação judicial sendo do Estado, a direção do Hospital Municipal não cruzou os braços. A equipe manteve contato direto com o coordenador da regulação, reforçando a necessidade urgente da transferência e buscando leitos por conta própria. A decisão que destrancou o caso foi da juíza Ana Paula Brito Santos, que determinou que o Estado providenciasse uma vaga em no máximo 24 horas, citando o risco de morte. Ainda assim, o pedido rodou por centrais de regulação de cinco regiões do estado, Patos de Minas, Belo Horizonte, Uberlândia, Governador Valadares e Diamantina, e todas devolveram sem vaga. A saída foi o Estado comprar um leito no Hospital Santa Lúcia, em Poços de Caldas, confirmado às 12:50h da última quinta-feira (30).
Independente da ação judicial, a Prefeitura de João Pinheiro tomou a iniciativa por conta própria de adquirir equipamento para sistema de curativo por pressão negativa (VAC), mais conhecido como Abthera, além de kits abdominais e reservatórios para o tratamento de Elisângela. Ela já vinha sendo tratada com curativo a vácuo no Hospital Municipal, o mesmo modelo utilizado como padrão pelo SUS em todo o estado. No entanto, a família entendeu que o tratamento seria mais eficaz com o sistema Abthera, considerado uma versão mais avançada e específica para casos de abdômen aberto. O prefeito Gláucon César Cardoso assinou uma dispensa emergencial no valor total de R$ 201.600,00 para a compra do material, decisão tomada pela gestão municipal sem relação com a ordem judicial.
A história de Elisângela começou antes mesmo de chegar a João Pinheiro. Moradora de Brasilândia de Minas, ela procurou o Centro de Saúde de Brasilândia de Minas algumas vezes com queixas e foi liberada para casa. O quadro piorou e evoluiu para uma apendicite supurada, quando o apêndice já está inflamado e em estágio avançado. Como Brasilândia de Minas não tinha estrutura para o procedimento, Elisângela foi encaminhada ao Hospital Municipal de João Pinheiro, onde deu entrada no dia 25 de março. O que deveria ser uma cirurgia virou um um procedimento complexo: deu infecção generalizada, o abdômen não pôde ser fechado e ela precisou de aparelhos para respirar e de hemodiálise. A família recorreu à Justiça depois de ver dezenas de pedidos de leito serem negados pelo SUSFácil.
Elisângela já está no Hospital Santa Lúcia em Poços de Caldas recebendo atendimento.
