Ele não tinha dono, tinha rua. E tinha dois nomes, porque cada vizinho batizou do seu jeito. Para uns era "Chocolate", para outros, "Caroço de Manga". O vira-lata misturado com poodle circulava pelo Bougainville 3, em João Pinheiro, comia na porta de uma casa, dormia na sombra de outra e já fazia parte da paisagem do bairro. Na madrugada deste sábado, 29 de agosto, ele foi morto por cães da raça pit bull.
A morte pegou a vizinhança de surpresa e deixou um vazio difícil de explicar para quem nunca conviveu com um cão comunitário. Não havia uma família responsável pelo animal, havia várias. Um levava ração, outro guardava restinho de comida, um terceiro dava água nos dias quentes. Segundo apurado pelo JP Agora, era assim que o cãozinho vivia, cuidado por todo mundo e por ninguém ao mesmo tempo.
O ataque aconteceu enquanto a rua dormia. Os pit bulls teriam alcançado o animal, que não tinha qualquer chance diante da diferença de porte. Moradores encontraram o cãozinho já sem vida e a notícia se espalhou rápido pelos grupos de WhatsApp da vizinhança.
Entre a tristeza e a revolta, ficou um pedido que os moradores fazem questão de repetir: quem tem cão de grande porte precisa garantir que ele não saia de casa. Portão que não fecha direito, muro baixo, cerca solta, tudo isso vira risco não só para outros animais, mas para crianças e idosos que passam na calçada.
Vale lembrar que o tutor responde civilmente pelos danos causados pelo animal sob sua guarda, conforme o
Código Civil, e que manter o cão contido no imóvel é obrigação de quem cria, e não favor à vizinhança. Guias curtas, focinheira nos passeios com raças de grande porte e portões bem trancados são medidas simples que evitam episódios como o deste sábado.
No Bougainville 3, a rua perdeu mais que um cachorro. Perdeu aquele que recebia todo mundo na volta do trabalho e que, sem pertencer a ninguém, pertencia a todos.
