Quase seis meses após a morte do aposentado Manoel Cardoso de Brito, de 68 anos, o caso que chocou João Pinheiro ganhou um desdobramento grave. A 6ª Delegacia de Polícia Civil concluiu a investigação e indiciou três profissionais de saúde por homicídio culposo, modalidade do crime em que não há intenção de matar, mas em que a morte decorre de imprudência, negligência ou imperícia. O indiciamento se baseou no laudo do Instituto Médico Legal (IML) que analisou a conduta da equipe responsável pelas cirurgias. O idoso morreu no dia 24 de dezembro de 2025, após uma pinça cirúrgica de 14 centímetros ter sido esquecida dentro do seu abdômen durante um procedimento.
Os três indiciados são o cirurgião Marcus Vinícius Meneses da Silva, responsável pela primeira cirurgia, a médica auxiliar Bárbara Furtado de Noronha, que participou dos dois procedimentos, e o instrumentador cirúrgico Lucas Fillipi Alves de Souza. Todos foram enquadrados no artigo 121, parágrafo terceiro, do Código Penal, que trata do homicídio culposo. É importante destacar que o indiciamento é uma etapa da investigação policial e não representa condenação — os três respondem ao processo em liberdade e têm assegurado o direito à presunção de inocência e à ampla defesa. O inquérito, que não corre em segredo de justiça, foi remetido à 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da comarca de João Pinheiro.
Segundo o laudo pericial, Manoel deu entrada na UPA no dia 4 de dezembro com fortes dores abdominais e foi transferido ao Hospital Municipal, onde passou por uma cirurgia de urgência para tratar uma úlcera gástrica perfurada. O procedimento, considerado vital e tecnicamente correto pela perícia diante da gravidade do quadro, foi marcado por um erro grave: uma pinça hemostática de 14 centímetros foi deixada dentro da cavidade abdominal do paciente.
Segunda cirurgia foi o “fator decisivo”, aponta perícia
Nos dias seguintes, o estado de saúde de Manoel se deteriorou, com sonolência intensa, queda de pressão e odor na ferida operatória. No dia 11 de dezembro, uma tomografia revelou a presença do objeto metálico, e o idoso precisou passar por uma segunda cirurgia de urgência para a retirada da pinça. Foi justamente essa segunda intervenção, segundo o laudo, que se tornou o ponto central da investigação. A perícia concluiu que a nova cirurgia, motivada exclusivamente pelo erro, funcionou como um “segundo golpe” no organismo já fragilizado do paciente, contribuindo de forma decisiva para o agravamento que levou à morte por choque séptico no dia 24 de dezembro.
O documento do IML classificou o episódio como um “oblito cirúrgico”, termo técnico para a retenção involuntária de instrumentos no corpo do paciente, e o definiu como um “evento sentinela severo”. Segundo a perícia, não há justificativa técnica, científica ou doutrinária que defenda o esquecimento de uma pinça de 14 centímetros na cavidade abdominal, já que a revisão da área antes do fechamento é descrita como um “dogma cirúrgico universal e inegociável”. O laudo concluiu ainda que a morte resultou de inobservância de regra técnica de profissão, fator que pode agravar a pena no caso de homicídio culposo.
Falha foi atribuída à equipe como um todo, exceto médico anestesista e enfermeiro circulante
A perícia detalhou a responsabilidade de cada integrante da equipe. O cirurgião principal, descrito como o “capitão do navio”, tem o dever final e indelegável de revisar a cavidade antes de finalizar o procedimento. A médica auxiliar compartilha o dever de inspecionar a área em busca de corpos estranhos, e o instrumentador é o responsável pelo controle de todo o material cirúrgico, devendo realizar a contagem das peças antes, durante e ao fim da operação. Durante os depoimentos, surgiu a alegação de que o hospital não exigia um protocolo formal de contagem de instrumentos, apenas de compressas. A perícia, no entanto, rebateu o argumento, afirmando que a ausência de um protocolo institucional não isenta os profissionais do dever de cuidado, já que a contagem de instrumentais é uma norma universal de cirurgia segura recomendada pela Organização Mundial da Saúde desde 2008.
Família agradece o trabalho da Polícia Civil
Por meio de seu advogado Iuri Furtado, a família de Manoel Cardoso de Brito se manifestou sobre a conclusão do inquérito e agradeceu o empenho da investigação. “A família do senhor Manoel agradece ao trabalho da Polícia Civil, que de forma imparcial realizou um trabalho sério e com profissionalismo na busca de esclarecer todos os fatos relativos ao caso”, declarou a defesa da família. Desde a morte do idoso, ocorrida na véspera do Natal, os familiares vinham cobrando respostas e buscando responsabilização pelo ocorrido.
Com o indiciamento concluído, o inquérito segue agora para a Justiça Pública de João Pinheiro, onde o Ministério Público vai analisar os autos e decidir sobre o oferecimento de denúncia contra os três profissionais. O JP Agora reforça que tenta contato com os envolvidos e que o espaço permanece aberto para manifestação. A reportagem seguirá acompanhando os desdobramentos do caso.
