Uma noite que começou com a chegada de uma gestante ao hospital por causa de pressão alta terminou em uma tragédia que agora é investigada como duplo homicídio pela Polícia Civil. O Auto de Prisão em Flagrante aponta novos detalhes sobre a morte de uma mulher grávida de 30 semanas e do seu bebê, no Hospital São Francisco, em Três Marias.
O médico Higo Moreira Fonseca, de 42 anos, foi preso em flagrante no dia 9 de junho. No despacho ratificador da prisão, a Polícia Civil classificou o caso como duplo homicídio simples por dolo eventual, entendimento usado quando a autoridade avalia que o investigado assumiu o risco de provocar o resultado morte. A defesa nega a acusação e afirma que não houve omissão.
De acordo com o auto de prisão em flagrante, a gestante deu entrada no hospital na noite de 8 de junho, com quadro de hipertensão. Ela foi atendida inicialmente por uma médica clínica, que pediu exames e acionou o obstetra que estava de sobreaviso. Ainda conforme o documento, o resultado de um exame chamado proteinúria de fita apresentou alteração, o que aumentou a preocupação da equipe sobre uma possível complicação na gravidez.
Segundo apurado pelo JP Agora, o despacho da Polícia Civil afirma que Higo teria sido chamado seis vezes, por mensagens e ligações, para comparecer ao hospital e examinar a paciente. O documento também cita que o médico estava na escala do plantão obstétrico e teria prazo de até 15 minutos para comparecer presencialmente quando acionado.
Durante a madrugada, a situação da gestante piorou. Profissionais ouvidos pela Polícia relataram que ela passou a apresentar mal-estar, palidez, agitação e desconforto abdominal. Por volta de 05:00h, o obstetra teria sido novamente acionado, mas, segundo testemunhas, manteve o entendimento de que o caso era clínico e não obstétrico.
A paciente foi levada para a sala vermelha e sofreu uma parada cardiorrespiratória. A equipe conseguiu reanimá-la em um primeiro momento. O médico chegou ao hospital por volta de 05:30h, depois de contato feito pelo diretor técnico da unidade. Pouco depois, a gestante teve uma segunda parada cardiorrespiratória. Novas manobras foram feitas, mas ela não resistiu. O óbito foi confirmado às 05:45h.
Outro ponto citado no documento envolve a decisão de não realizar a cesariana. Testemunhas disseram que um anestesista sugeriu o procedimento para tentar salvar o feto, mas o obstetra decidiu não prosseguir. Para a Polícia Civil, a conduta do médico indicaria dolo eventual tanto em relação à gestante quanto ao feto.
Em depoimento na delegacia, Higo Moreira Fonseca negou ter sido informado de uma emergência obstétrica antes da piora grave da paciente. Ele afirmou que estava em regime de sobreaviso, que foi acionado para discutir o caso e que compareceu ao hospital cerca de cinco minutos depois de ser chamado pelo diretor técnico. O médico também negou ter recusado ligações ou desligado o telefone.
Ainda segundo a versão apresentada por Higo, a cesariana não foi feita porque ele teria constatado ausência de sinais do feto e considerado risco de prematuridade extrema e sequelas neurológicas graves. A defesa sustenta que o caso precisa ser esclarecido com análise completa de prontuários, mensagens, ligações e laudos periciais.
Segundo apurado pelo JP Agora, a advogada que acompanhou Higo durante a prisão em flagrante foi substituída no decorrer do procedimento. A reportagem tentou localizar contato da nova defesa do médico, mas não conseguiu até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.
Segundo consulta feita pelo JP Agora ao SIGPRI, sistema de informações prisionais de Minas Gerais, Higo Moreira Fonseca permanece preso no presídio de Três Marias. O APFD mostra que ele foi preso em flagrante no dia 9 de junho e que a prisão foi ratificada pela Polícia Civil.
O corpo da gestante foi encaminhado ao IML de Curvelo, e a Polícia Civil requisitou exames para apontar a causa da morte. O processo tramita na Vara Única da Comarca de Três Marias e não está em segredo de Justiça. O caso segue em investigação.
Na tarde desta quarta-feira (10), o Prefeito Dr. Danilo, que também é médico, se posicionou sobre o caso. Ele manifestou pesar e solidariedade aos familiares e trouxe detalhes técnicos do atendimento que apontam para uma possível complicação obstétrica grave.
Segundo o Prefeito, a paciente chegou ao Pronto-Socorro com pressão arterial aferida em 180 por 120 mmHg, quadro compatível com suspeita de eclâmpsia, uma das mais graves complicações obstétricas e uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil. “A paciente recebeu atendimento imediato por médica clínica capacitada e experiente, que prontamente iniciou as medidas preconizadas nos protocolos médicos para controle da pressão arterial e estabilização do quadro clínico”, afirmou a Prefeitura. A nota também confirma que o obstetra de plantão atua em regime de sobreaviso, conforme o modelo assistencial adotado no município.
Dr. Danilo assumiu pessoalmente o acompanhamento da apuração. “O Prefeito Municipal, que também é médico, acompanhará pessoalmente a análise técnica do prontuário e de toda a assistência prestada, com o objetivo de avaliar os protocolos adotados e identificar possíveis medidas de aprimoramento”, destacou a nota. A gestão reforçou, no entanto, que “é prematuro atribuir responsabilidades a qualquer profissional envolvido no atendimento” e que aguardará os resultados dos exames periciais antes de novas manifestações.
Ele também saiu em defesa do obstetra, sem citar nomes. “O obstetra responsável pelo plantão é profissional experiente, médico ginecologista e obstetra com formação complementar em oncologia, reconhecido por sua dedicação à comunidade e pelo compromisso com a assistência médica, não havendo qualquer elemento que autorize conclusões precipitadas sobre eventual omissão de socorro ou negligência”, afirma o documento.
Para finalizar, o Prefeito Dr. Danilo aproveitou a manifestação para fazer um alerta à população. “Reforçamos a importância de que todas as gestantes realizem o pré-natal de forma regular e rigorosa, comparecendo às consultas agendadas, realizando os exames recomendados e comunicando imediatamente à equipe de saúde qualquer sinal de alerta, como elevação da pressão arterial, dores de cabeça intensas, alterações visuais, inchaço excessivo ou redução dos movimentos fetais. O acompanhamento pré-natal adequado é uma das principais ferramentas para a identificação precoce de fatores de risco”, ressaltou.
